Ondas de Calor no Brasil: Como Soluções Baseadas na Natureza Podem Resfriar Cidades e Proteger Vidas
- Isaac Santos
- 9 de jan.
- 13 min de leitura

Introdução: A Emergência Silenciosa do Calor Extremo
O calor extremo é uma emergência silenciosa. Nos últimos anos, recordes de temperatura têm sido superados globalmente, e o Brasil vivencia essa realidade de forma cada vez mais intensa. Os anos de 2023 e 2024 foram marcados por uma frequência alarmante de ondas de calor que colocaram a saúde da população e a resiliência das cidades à prova. Embora menos visíveis que tempestades ou inundações, os impactos do calor são letais, superando o número de vítimas por deslizamentos de terra no país entre 2000 e 2018.
Uma Onda de Calor é definida pelo Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) como um período de pelo menos cinco dias consecutivos em que a temperatura máxima diária supera a média mensal em 5°C. A Organização Meteorológica Mundial (WMO) utiliza critérios similares, embora as especificidades possam variar entre os países. Esse fenômeno, que antes era raro, tornou-se uma ameaça recorrente.
Este artigo analisa os impactos crescentes das ondas de calor, a vulnerabilidade das cidades brasileiras e, crucialmente, o papel transformador das Soluções Baseadas na Natureza (SbN). Exploraremos como a infraestrutura verde pode não apenas resfriar nossos centros urbanos, mas também promover a justiça climática e construir um futuro mais seguro e resiliente para todos.
1.0 O que define uma onda de calor e por que sua frequência está aumentando?
Para declarar oficialmente uma onda de calor, agências meteorológicas utilizam critérios técnicos específicos que consideram a intensidade e a duração das altas temperaturas em relação às médias históricas locais. Entender essa definição e a crescente frequência com que esses eventos ocorrem é o primeiro passo para dimensionar o risco e desenvolver estratégias eficazes de mitigação e adaptação.
Uma onda de calor é um período de pelo menos cinco dias consecutivos em que a temperatura máxima diária supera a média mensal em 5°C, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) do Brasil. Outras organizações, como a Organização Meteorológica Mundial (WMO), utilizam critérios ligeiramente diferentes, mas o conceito central é sempre um período de calor excepcional.
Análise das Definições
A caracterização de uma onda de calor não é universal e varia conforme a climatologia de cada região. Essa adaptação local é essencial para que os alertas sejam relevantes e eficazes.
Brasil (INMET): Considera um período de pelo menos cinco dias consecutivos em que a temperatura máxima diária supera a média mensal em 5°C.
Portugal (adotando o índice da WMO): Adota a definição de pelo menos seis dias consecutivos em que a temperatura máxima diária é superior em 5°C ao valor médio de referência.
Países Baixos: Define como um período de pelo menos cinco dias acima de 25°C, dos quais ao menos três devem superar os 30°C.
Análise de Dados de Frequência
Os dados históricos do Brasil revelam uma aceleração dramática na ocorrência de ondas de calor. O que era um evento raro tornou-se uma característica sazonal cada vez mais perigosa.
O número de dias com ondas de calor no Brasil saltou de uma média de 7 dias (entre 1961-1990) para 52 dias (entre 2011-2020), um aumento de mais de sete vezes.
Em 2023, o país registrou nove ondas de calor. O ritmo se acelerou drasticamente no início do ano seguinte, com oito eventos já registrados, demonstrando que o que era uma anomalia sazonal está se tornando uma condição quase permanente.
A causa dessa intensificação está diretamente ligada às mudanças climáticas, impulsionadas pela atividade humana.
“O aumento da duração, intensidade e frequência desse fenômeno climático reflete o acréscimo da temperatura média global decorrente da elevada emissão de gases do efeito estufa sendo exacerbado, em parte, pelas ilhas de calor [áreas urbanas que aprisionam o calor e tornam a temperatura mais alta que os arredores].”
— Renata Libonati, meteorologista e professora da UFRJ.
Esse aumento alarmante na frequência e intensidade das ondas de calor eleva drasticamente os riscos para a saúde pública, exigindo uma compreensão aprofundada de seus efeitos diretos sobre o corpo humano.
2.0 Quais são os impactos diretos do calor extremo na saúde humana?
Compreender os riscos fisiológicos do calor é uma questão estratégica de saúde pública. O calor se torna letal quando supera a capacidade do corpo de regular sua própria temperatura, um processo conhecido como termorregulação. Esse risco não é distribuído igualmente, afetando de forma desproporcional as populações mais vulneráveis, como idosos, crianças e pessoas com doenças crônicas.
O calor extremo expõe idosos a riscos graves como desidratação, confusão mental, tonturas, quedas e desmaios. Ele também agrava doenças cardiovasculares e respiratórias preexistentes. A perda de líquidos pode ser tão severa que, em alguns casos, a hidratação intravenosa em unidades de saúde se torna necessária para evitar falência de órgãos.
Detalhamento dos Sintomas e Grupos de Risco

Os idosos são particularmente suscetíveis aos efeitos do calor, conforme explica Leonardo Brando Oliva, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia do Estado de SP (SBGG).
Mecanismo da Sede: Em idosos, a percepção da sede pode não funcionar adequadamente. Mesmo que o corpo precise de líquidos, eles podem não sentir vontade de beber, o que acelera o processo de desidratação.
Sintomas Físicos: Os sinais de alerta incluem confusão mental, agitação, prostração, tonturas, quedas e pele ressecada.
Órgãos Afetados: O rim é o primeiro órgão a sofrer com a desidratação. Em seguida, a falta de líquidos pode levar a problemas de pressão baixa, aumentando o risco de quedas e desmaios.
Mortalidade: Os números dimensionam a gravidade do problema. No Brasil, o calor foi responsável por 48 mil mortes entre 2000 e 2018, superando as mortes causadas por deslizamentos de terra. Internacionalmente, a onda de calor na França em 2003 causou quase 15 mil mortes em excesso.
Recomendações Práticas
Medidas preventivas simples podem salvar vidas. As orientações focam em hidratação, comportamento e busca por ajuda médica.
Hidratação: É crucial estimular os idosos a beberem líquidos, mesmo sem sede. Além de água, opções saborizadas como água de coco, chá gelado e sucos leves podem melhorar a aceitação.
Vestuário e Exposição: Usar roupas leves e claras é fundamental. Deve-se evitar a exposição prolongada ao sol e a permanência em ambientes quentes e com pouca ventilação.
Atividade Física: Exercícios devem ser realizados em horários de temperatura mais amena, como no início da manhã ou no final da tarde.
Ações Médicas: Ao notar sintomas de desidratação, a orientação é procurar atendimento em Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), Assistências Médicas Ambulatoriais (AMAs) ou Unidades Básicas de Saúde (UBSs). Em casos de emergência, o SAMU (192) deve ser acionado.
No ambiente urbano, esses riscos à saúde são intensificados por um fenômeno específico que transforma as cidades em armadilhas de calor: a ilha de calor urbana.
3.0 Como o fenômeno da Ilha de Calor Urbana agrava as ondas de calor no Brasil?
O aquecimento global não é o único vilão. A própria estrutura das nossas cidades — dominada por asfalto, concreto e edifícios — cria microclimas que absorvem e retêm mais calor do que as áreas rurais vizinhas. Esse fenômeno, conhecido como Ilha de Calor Urbana (ICU), amplifica as temperaturas durante as ondas de calor, tornando a análise deste fator crucial para a resiliência urbana.
A Ilha de Calor Urbana é um fenômeno climático onde áreas urbanas apresentam temperaturas significativamente mais elevadas que suas regiões vizinhas não urbanizadas. Isso ocorre porque materiais como asfalto e concreto absorvem e retêm a radiação solar, somado à ausência de vegetação, que resfriaria o ambiente através de sombra e evapotranspiração.
Análise do Fenômeno
O mecanismo da Ilha de Calor Urbana opera de maneiras distintas durante o dia e a noite, alterando drasticamente o conforto térmico da população.
Durante o dia: A intensidade da ICU é influenciada pela geometria urbana (que define o sombreamento entre edifícios) e pela capacidade das superfícies de refletir a radiação solar. Materiais escuros absorvem mais calor, aquecendo o ar.
Durante a noite: O fenômeno se intensifica. Enquanto áreas rurais e com vegetação resfriam rapidamente após o pôr do sol, as superfícies urbanas liberam lentamente o calor acumulado durante o dia, mantendo as temperaturas noturnas elevadas e impedindo o alívio térmico necessário para o corpo humano se recuperar.
Dados Quantitativos para São Paulo
Estudos no estado de São Paulo quantificam a magnitude do problema, revelando diferenças de temperatura alarmantes entre áreas urbanas e rurais.
Uma análise em 52 áreas urbanizadas no estado de São Paulo identificou uma média de 5°C de ilha de calor de superfície durante a estação úmida.
Na Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), a intensidade da ilha de calor pode atingir picos de até 14°C.
A pesquisa confirmou uma forte correlação negativa entre a intensidade da ilha de calor e o índice de vegetação (NDVI), provando que a presença de cobertura vegetal é um fator determinante na modulação das temperaturas urbanas.
Essa diferença de até 14°C não é apenas um dado físico; ela se traduz diretamente em risco social, criando um mapa de vulnerabilidade que espelha a profunda desigualdade da metrópole.
4.0 Quem são os mais vulneráveis ao calor e como a desigualdade cria 'zonas de risco'?
Os impactos do calor extremo não são um problema meramente ambiental, mas profundamente social. A análise de risco climático se torna incompleta se não cruzar os dados de temperatura com indicadores socioeconômicos. É essa sobreposição que revela as verdadeiras "zonas de risco", onde a crise climática se manifesta de forma mais aguda e injusta.
A vulnerabilidade ao calor é determinada pela combinação de condições socioeconômicas, doenças preexistentes e idade. O risco climático é uma interação entre o perigo (temperaturas extremas), a vulnerabilidade (condição social) e a exposição (ambiente físico), resultando em "zonas de risco" concentradas em áreas periféricas, com habitações precárias e pouca infraestrutura verde.
Definição de Risco Climático
Para entender onde o risco se concentra, é preciso decompor seus três componentes fundamentais, conforme definido pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC):
Perigo: A ameaça climática em si, como as temperaturas extremas durante uma onda de calor.
Vulnerabilidade: A predisposição de um indivíduo a ser afetado. Está ligada a fatores como baixa renda, condições de saúde crônicas, idade avançada e limitada capacidade de adaptação.
Exposição: As características da área que afetam negativamente os indivíduos, como morar em habitações precárias, sem ventilação adequada, ou em bairros com alta densidade de superfícies impermeáveis (asfalto e concreto) e pouca vegetação.
Mapeamento da Desigualdade em São Paulo
Um mapeamento do risco ao calor na cidade de São Paulo demonstra de forma clara como a desigualdade socioespacial agrava a crise climática.
O estudo revela que as áreas com risco alto e extremamente alto se concentram em setores censitários periféricos, nas franjas da cidade.
Essas são as áreas onde vivem as populações mais vulneráveis, em habitações precárias e em regiões com alta presença de superfícies impermeáveis e baixa cobertura vegetal. A espacialização do risco ao calor, portanto, espelha os padrões de desigualdade social da metrópole.
O Conceito de Justiça Climática
Para enfrentar essa realidade, é preciso adotar a lente da justiça climática, que se baseia em três princípios fundamentais, conforme detalhado pela pesquisadora Gabriela Marques di Giulio:
Justiça Distributiva: A alocação de recursos, investimentos e medidas de adaptação deve priorizar a proteção dos mais vulneráveis, garantindo que os benefícios sejam distribuídos de forma equitativa.
Justiça Processual: Exige a inclusão e a participação ativa de todos os grupos sociais, especialmente os mais afetados, nos processos de tomada de decisão sobre políticas climáticas.
Justiça de Reconhecimento: Implica reconhecer que desigualdades estruturais e sistêmicas existem e que grupos historicamente marginalizados vivenciam os impactos climáticos de forma diferente e desproporcional.
A implementação de Soluções Baseadas na Natureza, como será explorado adiante, surge como uma estratégia-chave não apenas para o resfriamento, mas para a aplicação direta destes princípios de justiça distributiva no tecido urbano.
5.0 O que são Soluções Baseadas na Natureza (SbN) e como elas combatem o calor urbano?

Em contraste com as soluções de engenharia convencionais, frequentemente chamadas de "infraestrutura cinza" (como canalização de rios ou construção de viadutos) que geralmente atendem a um único objetivo, as Soluções Baseadas na Natureza (SbN) emergem como uma abordagem inovadora e multifuncional. Elas utilizam os processos e ecossistemas naturais para enfrentar desafios sociais e ambientais de forma integrada, promovendo o bem-estar humano e a biodiversidade.
Soluções Baseadas na Natureza (SbN) são ações que protegem, manejam de forma sustentável e restauram ecossistemas para enfrentar desafios sociais como as mudanças climáticas. Para combater o calor, elas atuam por meio de dois processos-chave: o sombreamento, que bloqueia a radiação solar, e a evapotranspiração, que libera umidade e resfria o ar.
Mecanismos de Resfriamento
As SbN proporcionam conforto térmico e reduzem as temperaturas urbanas por meio de dois mecanismos físicos principais:
Sombreamento: A copa das árvores e outras formas de vegetação interceptam a radiação solar direta, impedindo que ela aqueça superfícies como asfalto, concreto e telhados. Ao manter essas superfícies mais frias, a vegetação reduz a temperatura do ar ao redor.
Evapotranspiração: Este processo funciona como um "ar-condicionado natural". As plantas liberam vapor d'água na atmosfera através de suas folhas (transpiração), enquanto a água evapora de corpos d'água e do solo úmido. Esse processo consome energia na forma de calor, resfriando ativamente o ambiente.
Multifuncionalidade e Cobenefícios
O diferencial estratégico das SbN reside em sua capacidade de gerar múltiplos benefícios simultâneos, muito além do resfriamento. Enquanto um sistema de ar-condicionado apenas resfria um ambiente (com alto custo energético), um parque urbano oferece um vasto leque de cobenefícios:
Melhora na saúde física e mental da população.
Conservação da biodiversidade urbana.
Geração de renda e inclusão produtiva, como em projetos de agricultura urbana.
Redução de poluentes atmosféricos.
Sequestro de carbono, contribuindo para a mitigação das mudanças climáticas.
O Descompasso Socioecológico
Apesar do enorme potencial, a distribuição da infraestrutura verde nas cidades brasileiras é frequentemente desigual, criando um "descompasso socioecológico". Um estudo em São Paulo revelou uma grave desconexão entre onde o serviço de amenização climática é ofertado e onde a demanda é maior.
Cerca de 35% do território paulistano possui alta capacidade de amenização climática, mas essa capacidade está concentrada em grandes remanescentes florestais com baixa densidade populacional.
Em contraste, áreas densamente povoadas e socialmente vulneráveis, como Paraisópolis, apresentam altíssima demanda por resfriamento, mas uma oferta extremamente baixa do serviço, criando zonas de risco acentuado.
Isso evidencia que não basta apenas ter áreas verdes; é preciso planejá-las de forma estratégica e justa, analisando os tipos específicos de SbN e seus respectivos benefícios para atender às necessidades das populações mais vulneráveis.
6.0 Quais os principais tipos de SbN e seus benefícios, cobenefícios e desserviços?
Para um planejamento urbano eficaz, não basta adotar o conceito de SbN de forma genérica. É crucial entender as vantagens, os cobenefícios e as possíveis desvantagens — ou "desserviços" — de cada tipo de intervenção. Desde a simples arborização de uma calçada até a criação de complexos corredores verdes, cada solução possui características únicas que devem ser consideradas para maximizar seus impactos positivos e mitigar os negativos.
Os principais tipos de Soluções Baseadas na Natureza para o contexto urbano incluem arborização, corredores verdes, florestas, jardins de chuva e hortas. Embora todas ajudem a reduzir a temperatura, elas oferecem diferentes cobenefícios, como aumento da biodiversidade e segurança alimentar. Contudo, também podem apresentar desserviços, como conflitos com a infraestrutura, problemas de segurança ou proliferação de mosquitos, exigindo um planejamento cuidadoso.
Tabela Comparativa de Soluções Baseadas na Natureza
A tabela abaixo sintetiza os benefícios diretos para o clima, os cobenefícios e os possíveis desserviços de cinco tipologias de SbN, com base em levantamentos aplicados à realidade paulista.
Tipologia de SbN | Benefícios Diretos ao Clima | Cobenefícios | Possíveis Desserviços |
Arborização Urbana / Miniflorestas | Regulação da umidade do ar, melhora do conforto térmico, redução da temperatura. | Sequestro de CO2, melhora na saúde humana, aumento da biodiversidade, proteção do solo, redução de poluentes. | Emissão de COVs, potencial dano à infraestrutura, sobreposição espacial, problemas de segurança, proliferação de mosquitos. |
Corredores Verdes | Regulação da umidade do ar, aumento da retenção de água, melhora do conforto térmico, redução de temperatura. | Remoção de carbono, melhora na saúde humana, aumento da biodiversidade, bem-estar humano, trânsito seguro para a fauna. | Conflito humano-fauna, segmentação do tecido urbano, proliferação de mosquitos, acúmulo de entulho, gentrificação. |
Florestas (UC) | Regulação da umidade do ar, melhora do conforto térmico, redução de temperatura. | Remoção de carbono, melhora na saúde humana, aumento da biodiversidade, bem-estar humano, trânsito seguro para a fauna. | Caça nas áreas de borda, desapropriação, incêndios florestais, gentrificação. |
Calçada e Vaga Verde / Jardim de Chuva | Aumento da permeabilidade, regulação da umidade do ar, redução de temperatura local. | Aumento da biodiversidade, melhora na qualidade da água, redução de inundação, educação ambiental. | Problemas de acessibilidade, proliferação de mosquitos. |
Hortas / SAF | Regulação da umidade do ar, melhora do conforto térmico, redução da temperatura. | Produção de alimentos, remoção de carbono, melhora na saúde humana, geração de emprego, educação ambiental. | Demanda hídrica, contaminação da água e solo por agrotóxicos. |
A análise destes 'desserviços' é fundamental: revela que a implementação de SbN não é uma simples questão de 'plantar mais árvores', mas uma complexa disciplina de planejamento urbano. Questões como gentrificação, conflitos com a infraestrutura e até a proliferação de vetores exigem um design contextualizado e uma gestão contínua, garantindo que as soluções não criem novos problemas, especialmente para as populações mais vulneráveis.
7.0 Qual é o protocolo de emergência de São Paulo para ondas de calor?
Enquanto as Soluções Baseadas na Natureza reestruturam a resiliência da cidade a longo prazo, protocolos de emergência são a linha de frente indispensável na gestão de crises imediatas, tratando os sintomas agudos de um problema crônico. O Protocolo Municipal de Enfrentamento ao Calor Extremo de São Paulo é um exemplo de política pública reativa, projetada para mobilizar diferentes setores da administração pública de forma coordenada e escalonada, funcionando como um "band-aid" necessário mas insuficiente para o desafio estrutural.
O protocolo de São Paulo é um plano de ação escalonado em cinco Níveis de Calor (NC), de Moderado a Emergencial. As medidas variam desde alertas à população e hidratação até a suspensão de aulas e eventos, ativadas com base na temperatura, sensação térmica e duração do evento.
Tabela de Níveis de Calor e Ações
O protocolo estabelece um sistema de alerta claro, onde cada nível aciona um conjunto específico de ações para proteger a população, com foco nos grupos mais vulneráveis.
Nível de Calor (NC) | Classificação | Temperatura Real (°C) | Sensação Térmica (°C) | Duração Mínima | Principais Ações |
NC1 | Moderado | 32-34°C | 35-39°C | 1 dia | Divulgação de alertas, recomendação de consumo de água e uso de protetor solar. |
NC2 | Elevado | 35-37°C | 40-44°C | 2 dias consecutivos | Monitoramento da demanda de saúde, ajuste em horários de atividades físicas escolares. |
NC3 | Perigoso | 38-39°C | 45-49°C | 3 dias consecutivos | Instalação de Pontos de Resfriamento, redução da jornada de trabalhadores expostos, distribuição de água. |
NC4 | Extremo | 40-42°C | 50+°C | 3 dias consecutivos | Atendimento prioritário a vulneráveis na saúde, reforço nos serviços para população de rua. |
NC5 | Emergencial | Acima de 42°C | 55+°C | 4 dias consecutivos | Suspensão de aulas, restrição de eventos ao ar livre, uso de caminhões-pipa para resfriamento. |
Operação Altas Temperaturas
Complementar ao protocolo, a Operação Altas Temperaturas é uma ação direta de assistência. Ela é ativada sempre que a temperatura ou a sensação térmica atinge 32°C. A operação consiste na montagem de tendas em pontos estratégicos da cidade, oferecendo um abrigo com temperatura amena, hidratação e descanso para a população, além de espaços para o cuidado com animais de estimação.
Conclusão: Integrando Respostas Emergenciais e Soluções Estruturais
Combater o calor extremo nas cidades brasileiras exige uma abordagem dupla e integrada. Por um lado, a crescente frequência e intensidade das ondas de calor tornam indispensável a implementação de protocolos de emergência robustos, como o de São Paulo, que funcionam como uma rede de segurança imediata para proteger a vida, especialmente dos mais vulneráveis. Essas ações reativas são cruciais para a gestão da crise no curto prazo.
Por outro lado, a resiliência a longo prazo depende fundamentalmente da adoção estratégica, planejada e, acima de tudo, justa de Soluções Baseadas na Natureza. A infraestrutura verde não apenas resfria o ambiente urbano de forma sustentável, mas também oferece múltiplos cobenefícios que melhoram a qualidade de vida, promovem a biodiversidade e combatem as desigualdades socioespaciais que agravam o risco climático. A urgência da crise climática nos impõe o desafio de transformar o vasto conhecimento científico disponível em "conhecimento acionável", capacitando gestores públicos e a sociedade civil a construir cidades mais verdes, justas e preparadas para o clima do futuro.


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