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Ondas de Calor no Brasil: Como Soluções Baseadas na Natureza Podem Resfriar Cidades e Proteger Vidas

Pessoas caminhando de costas em uma orla movimentada durante o entardecer, sob forte luz dourada do sol e rodeadas por palmeiras

Introdução: A Emergência Silenciosa do Calor Extremo


O calor extremo é uma emergência silenciosa. Nos últimos anos, recordes de temperatura têm sido superados globalmente, e o Brasil vivencia essa realidade de forma cada vez mais intensa. Os anos de 2023 e 2024 foram marcados por uma frequência alarmante de ondas de calor que colocaram a saúde da população e a resiliência das cidades à prova. Embora menos visíveis que tempestades ou inundações, os impactos do calor são letais, superando o número de vítimas por deslizamentos de terra no país entre 2000 e 2018.


Uma Onda de Calor é definida pelo Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) como um período de pelo menos cinco dias consecutivos em que a temperatura máxima diária supera a média mensal em 5°C. A Organização Meteorológica Mundial (WMO) utiliza critérios similares, embora as especificidades possam variar entre os países. Esse fenômeno, que antes era raro, tornou-se uma ameaça recorrente.

Este artigo analisa os impactos crescentes das ondas de calor, a vulnerabilidade das cidades brasileiras e, crucialmente, o papel transformador das Soluções Baseadas na Natureza (SbN). Exploraremos como a infraestrutura verde pode não apenas resfriar nossos centros urbanos, mas também promover a justiça climática e construir um futuro mais seguro e resiliente para todos.


1.0 O que define uma onda de calor e por que sua frequência está aumentando?


Para declarar oficialmente uma onda de calor, agências meteorológicas utilizam critérios técnicos específicos que consideram a intensidade e a duração das altas temperaturas em relação às médias históricas locais. Entender essa definição e a crescente frequência com que esses eventos ocorrem é o primeiro passo para dimensionar o risco e desenvolver estratégias eficazes de mitigação e adaptação.

Uma onda de calor é um período de pelo menos cinco dias consecutivos em que a temperatura máxima diária supera a média mensal em 5°C, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) do Brasil. Outras organizações, como a Organização Meteorológica Mundial (WMO), utilizam critérios ligeiramente diferentes, mas o conceito central é sempre um período de calor excepcional.


Análise das Definições


A caracterização de uma onda de calor não é universal e varia conforme a climatologia de cada região. Essa adaptação local é essencial para que os alertas sejam relevantes e eficazes.


  • Brasil (INMET): Considera um período de pelo menos cinco dias consecutivos em que a temperatura máxima diária supera a média mensal em 5°C.

  • Portugal (adotando o índice da WMO): Adota a definição de pelo menos seis dias consecutivos em que a temperatura máxima diária é superior em 5°C ao valor médio de referência.

  • Países Baixos: Define como um período de pelo menos cinco dias acima de 25°C, dos quais ao menos três devem superar os 30°C.


Análise de Dados de Frequência


Os dados históricos do Brasil revelam uma aceleração dramática na ocorrência de ondas de calor. O que era um evento raro tornou-se uma característica sazonal cada vez mais perigosa.

  • O número de dias com ondas de calor no Brasil saltou de uma média de 7 dias (entre 1961-1990) para 52 dias (entre 2011-2020), um aumento de mais de sete vezes.

  • Em 2023, o país registrou nove ondas de calor. O ritmo se acelerou drasticamente no início do ano seguinte, com oito eventos já registrados, demonstrando que o que era uma anomalia sazonal está se tornando uma condição quase permanente.

A causa dessa intensificação está diretamente ligada às mudanças climáticas, impulsionadas pela atividade humana.

“O aumento da duração, intensidade e frequência desse fenômeno climático reflete o acréscimo da temperatura média global decorrente da elevada emissão de gases do efeito estufa sendo exacerbado, em parte, pelas ilhas de calor [áreas urbanas que aprisionam o calor e tornam a temperatura mais alta que os arredores].”

Renata Libonati, meteorologista e professora da UFRJ.

Esse aumento alarmante na frequência e intensidade das ondas de calor eleva drasticamente os riscos para a saúde pública, exigindo uma compreensão aprofundada de seus efeitos diretos sobre o corpo humano.


2.0 Quais são os impactos diretos do calor extremo na saúde humana?


Compreender os riscos fisiológicos do calor é uma questão estratégica de saúde pública. O calor se torna letal quando supera a capacidade do corpo de regular sua própria temperatura, um processo conhecido como termorregulação. Esse risco não é distribuído igualmente, afetando de forma desproporcional as populações mais vulneráveis, como idosos, crianças e pessoas com doenças crônicas.

O calor extremo expõe idosos a riscos graves como desidratação, confusão mental, tonturas, quedas e desmaios. Ele também agrava doenças cardiovasculares e respiratórias preexistentes. A perda de líquidos pode ser tão severa que, em alguns casos, a hidratação intravenosa em unidades de saúde se torna necessária para evitar falência de órgãos.


Detalhamento dos Sintomas e Grupos de Risco

Idoso Afetado por Onda de Calor Urbano
Pessoa idosa buscando abrigo do calor extremo em área urbana, demonstrando impacto de ondas de calor em grupos vulneráveis

Os idosos são particularmente suscetíveis aos efeitos do calor, conforme explica Leonardo Brando Oliva, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia do Estado de SP (SBGG).


  • Mecanismo da Sede: Em idosos, a percepção da sede pode não funcionar adequadamente. Mesmo que o corpo precise de líquidos, eles podem não sentir vontade de beber, o que acelera o processo de desidratação.

  • Sintomas Físicos: Os sinais de alerta incluem confusão mental, agitação, prostração, tonturas, quedas e pele ressecada.

  • Órgãos Afetados: O rim é o primeiro órgão a sofrer com a desidratação. Em seguida, a falta de líquidos pode levar a problemas de pressão baixa, aumentando o risco de quedas e desmaios.

  • Mortalidade: Os números dimensionam a gravidade do problema. No Brasil, o calor foi responsável por 48 mil mortes entre 2000 e 2018, superando as mortes causadas por deslizamentos de terra. Internacionalmente, a onda de calor na França em 2003 causou quase 15 mil mortes em excesso.


Recomendações Práticas


Medidas preventivas simples podem salvar vidas. As orientações focam em hidratação, comportamento e busca por ajuda médica.

  • Hidratação: É crucial estimular os idosos a beberem líquidos, mesmo sem sede. Além de água, opções saborizadas como água de coco, chá gelado e sucos leves podem melhorar a aceitação.

  • Vestuário e Exposição: Usar roupas leves e claras é fundamental. Deve-se evitar a exposição prolongada ao sol e a permanência em ambientes quentes e com pouca ventilação.

  • Atividade Física: Exercícios devem ser realizados em horários de temperatura mais amena, como no início da manhã ou no final da tarde.

  • Ações Médicas: Ao notar sintomas de desidratação, a orientação é procurar atendimento em Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), Assistências Médicas Ambulatoriais (AMAs) ou Unidades Básicas de Saúde (UBSs). Em casos de emergência, o SAMU (192) deve ser acionado.

No ambiente urbano, esses riscos à saúde são intensificados por um fenômeno específico que transforma as cidades em armadilhas de calor: a ilha de calor urbana.


3.0 Como o fenômeno da Ilha de Calor Urbana agrava as ondas de calor no Brasil?


O aquecimento global não é o único vilão. A própria estrutura das nossas cidades — dominada por asfalto, concreto e edifícios — cria microclimas que absorvem e retêm mais calor do que as áreas rurais vizinhas. Esse fenômeno, conhecido como Ilha de Calor Urbana (ICU), amplifica as temperaturas durante as ondas de calor, tornando a análise deste fator crucial para a resiliência urbana.

A Ilha de Calor Urbana é um fenômeno climático onde áreas urbanas apresentam temperaturas significativamente mais elevadas que suas regiões vizinhas não urbanizadas. Isso ocorre porque materiais como asfalto e concreto absorvem e retêm a radiação solar, somado à ausência de vegetação, que resfriaria o ambiente através de sombra e evapotranspiração.


Análise do Fenômeno


O mecanismo da Ilha de Calor Urbana opera de maneiras distintas durante o dia e a noite, alterando drasticamente o conforto térmico da população.

  • Durante o dia: A intensidade da ICU é influenciada pela geometria urbana (que define o sombreamento entre edifícios) e pela capacidade das superfícies de refletir a radiação solar. Materiais escuros absorvem mais calor, aquecendo o ar.

  • Durante a noite: O fenômeno se intensifica. Enquanto áreas rurais e com vegetação resfriam rapidamente após o pôr do sol, as superfícies urbanas liberam lentamente o calor acumulado durante o dia, mantendo as temperaturas noturnas elevadas e impedindo o alívio térmico necessário para o corpo humano se recuperar.


Dados Quantitativos para São Paulo


Estudos no estado de São Paulo quantificam a magnitude do problema, revelando diferenças de temperatura alarmantes entre áreas urbanas e rurais.

  • Uma análise em 52 áreas urbanizadas no estado de São Paulo identificou uma média de 5°C de ilha de calor de superfície durante a estação úmida.

  • Na Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), a intensidade da ilha de calor pode atingir picos de até 14°C.

  • A pesquisa confirmou uma forte correlação negativa entre a intensidade da ilha de calor e o índice de vegetação (NDVI), provando que a presença de cobertura vegetal é um fator determinante na modulação das temperaturas urbanas.

Essa diferença de até 14°C não é apenas um dado físico; ela se traduz diretamente em risco social, criando um mapa de vulnerabilidade que espelha a profunda desigualdade da metrópole.

4.0 Quem são os mais vulneráveis ao calor e como a desigualdade cria 'zonas de risco'?

Os impactos do calor extremo não são um problema meramente ambiental, mas profundamente social. A análise de risco climático se torna incompleta se não cruzar os dados de temperatura com indicadores socioeconômicos. É essa sobreposição que revela as verdadeiras "zonas de risco", onde a crise climática se manifesta de forma mais aguda e injusta.

A vulnerabilidade ao calor é determinada pela combinação de condições socioeconômicas, doenças preexistentes e idade. O risco climático é uma interação entre o perigo (temperaturas extremas), a vulnerabilidade (condição social) e a exposição (ambiente físico), resultando em "zonas de risco" concentradas em áreas periféricas, com habitações precárias e pouca infraestrutura verde.


Definição de Risco Climático

Para entender onde o risco se concentra, é preciso decompor seus três componentes fundamentais, conforme definido pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC):

  • Perigo: A ameaça climática em si, como as temperaturas extremas durante uma onda de calor.

  • Vulnerabilidade: A predisposição de um indivíduo a ser afetado. Está ligada a fatores como baixa renda, condições de saúde crônicas, idade avançada e limitada capacidade de adaptação.

  • Exposição: As características da área que afetam negativamente os indivíduos, como morar em habitações precárias, sem ventilação adequada, ou em bairros com alta densidade de superfícies impermeáveis (asfalto e concreto) e pouca vegetação.

Mapeamento da Desigualdade em São Paulo

Um mapeamento do risco ao calor na cidade de São Paulo demonstra de forma clara como a desigualdade socioespacial agrava a crise climática.

  • O estudo revela que as áreas com risco alto e extremamente alto se concentram em setores censitários periféricos, nas franjas da cidade.

  • Essas são as áreas onde vivem as populações mais vulneráveis, em habitações precárias e em regiões com alta presença de superfícies impermeáveis e baixa cobertura vegetal. A espacialização do risco ao calor, portanto, espelha os padrões de desigualdade social da metrópole.

O Conceito de Justiça Climática

Para enfrentar essa realidade, é preciso adotar a lente da justiça climática, que se baseia em três princípios fundamentais, conforme detalhado pela pesquisadora Gabriela Marques di Giulio:

  • Justiça Distributiva: A alocação de recursos, investimentos e medidas de adaptação deve priorizar a proteção dos mais vulneráveis, garantindo que os benefícios sejam distribuídos de forma equitativa.

  • Justiça Processual: Exige a inclusão e a participação ativa de todos os grupos sociais, especialmente os mais afetados, nos processos de tomada de decisão sobre políticas climáticas.

  • Justiça de Reconhecimento: Implica reconhecer que desigualdades estruturais e sistêmicas existem e que grupos historicamente marginalizados vivenciam os impactos climáticos de forma diferente e desproporcional.

A implementação de Soluções Baseadas na Natureza, como será explorado adiante, surge como uma estratégia-chave não apenas para o resfriamento, mas para a aplicação direta destes princípios de justiça distributiva no tecido urbano.


5.0 O que são Soluções Baseadas na Natureza (SbN) e como elas combatem o calor urbano?

Árvores urbanas sombreando rua de cidade brasileira durante onda de calor, mostrando soluções baseadas na natureza

Em contraste com as soluções de engenharia convencionais, frequentemente chamadas de "infraestrutura cinza" (como canalização de rios ou construção de viadutos) que geralmente atendem a um único objetivo, as Soluções Baseadas na Natureza (SbN) emergem como uma abordagem inovadora e multifuncional. Elas utilizam os processos e ecossistemas naturais para enfrentar desafios sociais e ambientais de forma integrada, promovendo o bem-estar humano e a biodiversidade.

Soluções Baseadas na Natureza (SbN) são ações que protegem, manejam de forma sustentável e restauram ecossistemas para enfrentar desafios sociais como as mudanças climáticas. Para combater o calor, elas atuam por meio de dois processos-chave: o sombreamento, que bloqueia a radiação solar, e a evapotranspiração, que libera umidade e resfria o ar.


Mecanismos de Resfriamento


As SbN proporcionam conforto térmico e reduzem as temperaturas urbanas por meio de dois mecanismos físicos principais:

  • Sombreamento: A copa das árvores e outras formas de vegetação interceptam a radiação solar direta, impedindo que ela aqueça superfícies como asfalto, concreto e telhados. Ao manter essas superfícies mais frias, a vegetação reduz a temperatura do ar ao redor.

  • Evapotranspiração: Este processo funciona como um "ar-condicionado natural". As plantas liberam vapor d'água na atmosfera através de suas folhas (transpiração), enquanto a água evapora de corpos d'água e do solo úmido. Esse processo consome energia na forma de calor, resfriando ativamente o ambiente.


Multifuncionalidade e Cobenefícios


O diferencial estratégico das SbN reside em sua capacidade de gerar múltiplos benefícios simultâneos, muito além do resfriamento. Enquanto um sistema de ar-condicionado apenas resfria um ambiente (com alto custo energético), um parque urbano oferece um vasto leque de cobenefícios:

  • Melhora na saúde física e mental da população.

  • Conservação da biodiversidade urbana.

  • Geração de renda e inclusão produtiva, como em projetos de agricultura urbana.

  • Redução de poluentes atmosféricos.

  • Sequestro de carbono, contribuindo para a mitigação das mudanças climáticas.

O Descompasso Socioecológico

Apesar do enorme potencial, a distribuição da infraestrutura verde nas cidades brasileiras é frequentemente desigual, criando um "descompasso socioecológico". Um estudo em São Paulo revelou uma grave desconexão entre onde o serviço de amenização climática é ofertado e onde a demanda é maior.

  • Cerca de 35% do território paulistano possui alta capacidade de amenização climática, mas essa capacidade está concentrada em grandes remanescentes florestais com baixa densidade populacional.

  • Em contraste, áreas densamente povoadas e socialmente vulneráveis, como Paraisópolis, apresentam altíssima demanda por resfriamento, mas uma oferta extremamente baixa do serviço, criando zonas de risco acentuado.

Isso evidencia que não basta apenas ter áreas verdes; é preciso planejá-las de forma estratégica e justa, analisando os tipos específicos de SbN e seus respectivos benefícios para atender às necessidades das populações mais vulneráveis.


6.0 Quais os principais tipos de SbN e seus benefícios, cobenefícios e desserviços?

Para um planejamento urbano eficaz, não basta adotar o conceito de SbN de forma genérica. É crucial entender as vantagens, os cobenefícios e as possíveis desvantagens — ou "desserviços" — de cada tipo de intervenção. Desde a simples arborização de uma calçada até a criação de complexos corredores verdes, cada solução possui características únicas que devem ser consideradas para maximizar seus impactos positivos e mitigar os negativos.

Os principais tipos de Soluções Baseadas na Natureza para o contexto urbano incluem arborização, corredores verdes, florestas, jardins de chuva e hortas. Embora todas ajudem a reduzir a temperatura, elas oferecem diferentes cobenefícios, como aumento da biodiversidade e segurança alimentar. Contudo, também podem apresentar desserviços, como conflitos com a infraestrutura, problemas de segurança ou proliferação de mosquitos, exigindo um planejamento cuidadoso.


Tabela Comparativa de Soluções Baseadas na Natureza


A tabela abaixo sintetiza os benefícios diretos para o clima, os cobenefícios e os possíveis desserviços de cinco tipologias de SbN, com base em levantamentos aplicados à realidade paulista.

Tipologia de SbN

Benefícios Diretos ao Clima

Cobenefícios

Possíveis Desserviços

Arborização Urbana / Miniflorestas

Regulação da umidade do ar, melhora do conforto térmico, redução da temperatura.

Sequestro de CO2, melhora na saúde humana, aumento da biodiversidade, proteção do solo, redução de poluentes.

Emissão de COVs, potencial dano à infraestrutura, sobreposição espacial, problemas de segurança, proliferação de mosquitos.

Corredores Verdes

Regulação da umidade do ar, aumento da retenção de água, melhora do conforto térmico, redução de temperatura.

Remoção de carbono, melhora na saúde humana, aumento da biodiversidade, bem-estar humano, trânsito seguro para a fauna.

Conflito humano-fauna, segmentação do tecido urbano, proliferação de mosquitos, acúmulo de entulho, gentrificação.

Florestas (UC)

Regulação da umidade do ar, melhora do conforto térmico, redução de temperatura.

Remoção de carbono, melhora na saúde humana, aumento da biodiversidade, bem-estar humano, trânsito seguro para a fauna.

Caça nas áreas de borda, desapropriação, incêndios florestais, gentrificação.

Calçada e Vaga Verde / Jardim de Chuva

Aumento da permeabilidade, regulação da umidade do ar, redução de temperatura local.

Aumento da biodiversidade, melhora na qualidade da água, redução de inundação, educação ambiental.

Problemas de acessibilidade, proliferação de mosquitos.

Hortas / SAF

Regulação da umidade do ar, melhora do conforto térmico, redução da temperatura.

Produção de alimentos, remoção de carbono, melhora na saúde humana, geração de emprego, educação ambiental.

Demanda hídrica, contaminação da água e solo por agrotóxicos.

A análise destes 'desserviços' é fundamental: revela que a implementação de SbN não é uma simples questão de 'plantar mais árvores', mas uma complexa disciplina de planejamento urbano. Questões como gentrificação, conflitos com a infraestrutura e até a proliferação de vetores exigem um design contextualizado e uma gestão contínua, garantindo que as soluções não criem novos problemas, especialmente para as populações mais vulneráveis.


7.0 Qual é o protocolo de emergência de São Paulo para ondas de calor?


Enquanto as Soluções Baseadas na Natureza reestruturam a resiliência da cidade a longo prazo, protocolos de emergência são a linha de frente indispensável na gestão de crises imediatas, tratando os sintomas agudos de um problema crônico. O Protocolo Municipal de Enfrentamento ao Calor Extremo de São Paulo é um exemplo de política pública reativa, projetada para mobilizar diferentes setores da administração pública de forma coordenada e escalonada, funcionando como um "band-aid" necessário mas insuficiente para o desafio estrutural.


O protocolo de São Paulo é um plano de ação escalonado em cinco Níveis de Calor (NC), de Moderado a Emergencial. As medidas variam desde alertas à população e hidratação até a suspensão de aulas e eventos, ativadas com base na temperatura, sensação térmica e duração do evento.


Tabela de Níveis de Calor e Ações


O protocolo estabelece um sistema de alerta claro, onde cada nível aciona um conjunto específico de ações para proteger a população, com foco nos grupos mais vulneráveis.

Nível de Calor (NC)

Classificação

Temperatura Real (°C)

Sensação Térmica (°C)

Duração Mínima

Principais Ações

NC1

Moderado

32-34°C

35-39°C

1 dia

Divulgação de alertas, recomendação de consumo de água e uso de protetor solar.

NC2

Elevado

35-37°C

40-44°C

2 dias consecutivos

Monitoramento da demanda de saúde, ajuste em horários de atividades físicas escolares.

NC3

Perigoso

38-39°C

45-49°C

3 dias consecutivos

Instalação de Pontos de Resfriamento, redução da jornada de trabalhadores expostos, distribuição de água.

NC4

Extremo

40-42°C

50+°C

3 dias consecutivos

Atendimento prioritário a vulneráveis na saúde, reforço nos serviços para população de rua.

NC5

Emergencial

Acima de 42°C

55+°C

4 dias consecutivos

Suspensão de aulas, restrição de eventos ao ar livre, uso de caminhões-pipa para resfriamento.

Operação Altas Temperaturas


Complementar ao protocolo, a Operação Altas Temperaturas é uma ação direta de assistência. Ela é ativada sempre que a temperatura ou a sensação térmica atinge 32°C. A operação consiste na montagem de tendas em pontos estratégicos da cidade, oferecendo um abrigo com temperatura amena, hidratação e descanso para a população, além de espaços para o cuidado com animais de estimação.



Conclusão: Integrando Respostas Emergenciais e Soluções Estruturais


Combater o calor extremo nas cidades brasileiras exige uma abordagem dupla e integrada. Por um lado, a crescente frequência e intensidade das ondas de calor tornam indispensável a implementação de protocolos de emergência robustos, como o de São Paulo, que funcionam como uma rede de segurança imediata para proteger a vida, especialmente dos mais vulneráveis. Essas ações reativas são cruciais para a gestão da crise no curto prazo.

Por outro lado, a resiliência a longo prazo depende fundamentalmente da adoção estratégica, planejada e, acima de tudo, justa de Soluções Baseadas na Natureza. A infraestrutura verde não apenas resfria o ambiente urbano de forma sustentável, mas também oferece múltiplos cobenefícios que melhoram a qualidade de vida, promovem a biodiversidade e combatem as desigualdades socioespaciais que agravam o risco climático. A urgência da crise climática nos impõe o desafio de transformar o vasto conhecimento científico disponível em "conhecimento acionável", capacitando gestores públicos e a sociedade civil a construir cidades mais verdes, justas e preparadas para o clima do futuro.



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